NA CASA FROUXA DA MIRTÁCEA UMA CHINA DE SEDA
“Um oriente ao oriente do oriente” é o inusitado
território poético que Assis de Mello nos apresenta em
sua nova coleção de poemas, que dialoga com o Tao e
com o Zen, a China e o Japão, em uma dicção pessoal e
com riqueza de imagens, sonoridades e imaginário. O
título do livro, Na casca frouxa da mirtácea uma China
de seda, já nos remete à Dinastia T’ang, período áureo
da poesia chinesa, comparável ao Século de Ouro
espanhol, em que poetas como Li Bai e Du Fu criaram
odes de celebração dos rios, lagos, montanhas, moças
e flores. Talvez por isso mesmo Assis de Mello tenha
escolhido, como subtítulo de sua obra, Rastros de um
naturalista no campo, que alude à sua formação como
zoólogo e ao seu amor pelas paisagens naturais
brasileiras. O fascínio pela imagem, aliás, está presente
em sua poesia de ótima fatura, desenvolvida ao longo
de quatro décadas, mas também em seu trabalho como
artista visual. Assim como Bashô e Li Bai, que
escreveram versos ao longo de viagens a lugares
distantes, famosos pela beleza de seus vales,
montanhas, rios e florestas, também Assis de Mello
percorreu cerrados, caatingas e savanas, a pé ou a
bordo de canoas, contemplando a paisagem natural e
registrando suas impressões em forma lírica. É uma
poesia de viajante, que coloca o “pé na estrada”, como
Kerouac – aliás, como Gary Snyder, outro poeta
encantado pelo mundo natural e pelas filosofias do
Oriente. CD ]
[ O poeta então se vê capturado na surpresa de olhar,
caso contrário nada de extraordinário aconteceria. Esse
olhar inusitado, portanto, é um dispositivo de errância
(e por isso andante), sendo desperto “sempre que via
algo que chamasse atenção”, como pontua Assis de
Mello na introdução do volume. Justamente, é esse
olhar que vai surpreender algo e ser surpreendido por
ele de modo que, pego pela imagem mundana, a figura
“de improviso” no poema, à maneira dos mestres da
tradição oriental dos haykus ao longo de suas
caminhadas. É assim que um dos mais célebres entre
eles, Basho, o poeta-bananeira (por antonomásia),
cabeça raspada e vestido de negro como os monges e
eruditos de sua época realizava seus périplos, sob
pretexto de visitar mosteiros e templos, como o de
Kashima, só para ver a lua cheia nascendo sobre as
montanhas deste santuário. Curioso que se o poeta se
movia em direção a um alvo ideal, desejante, o fazia
num plano imanente ao seu caminhar em que contava
com o fator surpresa do hayku, como o próprio Basho
sugere em um de seus relatos de viagem, já que o afã
em se deslocar infinitamente (em um desejo de sempre
partir) era também a deixa para ser surpreendido por
eventuais imagens da natureza e enfim gerar, como
num efeito colateral subjetivo, o hayku correspondente,
quem sabe atingindo com isso o gozo (ou satori) nessa
experiência interior. Daí o ímpeto de Basho: sempre
partir de algum lugar a outro, deixando por vezes seu
rastro em um kayku de despedida, pendurado em
algum local visível como, por exemplo, um pilar de
madeira. Na estrutura de um hayku tudo se liga: forma,
som, sentido, matéria (referencialidade), contendo na
base a fundamental conexão entre mente e corpo,
sensibilidade e razão. CB
R$ 48,00
Autor: Assis de Mello
Altura: 21,00 cm
Largura: 14,00 cm
Ano de edição: 2025
Edição: Português
Páginas: 116
ISBN: 978-65-89846-60-4
Informação adicional
| Peso | 0,100 kg |
|---|---|
| Dimensões | 0,1 × 14 × 21 cm |
